Os próximos passos da Pegada Ambiental de Produtos na Europa

Publicado dia 15/05/2018

Neste artigo de opinião, Thiago Rodrigues mostra sua visão sobre o EU Environmental Footprint Final Conference

A busca incessante pelo método milagroso! Como calcular os impactos ambientais de produtos e organizações de forma confiável, compreensível e exequível? Parece que a Europa deu um grande passo nesse sentido. Nos dias 23 a 25 de abril, aconteceu em Bruxelas uma importante conferência sobre o fim da fase piloto da Pegada Ambiental na Europa – EU Environmental Footprint Final Conference – from vision to action. O evento teve uma programação cheia, com números vultosos, como os 8.000 conjuntos de dados secundários disponíveis gratuitamente e a consequente potencial redução de custos dos estudos de ACV em até 90% (!), além de 21 Regras de Categoria para Pegada Ambiental de Produtos (PEFCR em inglês). Porém, a fase piloto não avançou em alguns pontos como a falta de estudos dedicados à Pegada Ambiental de Organizações (OEF) e nos métodos para alguns tópicos como alocação, biodiversidade, normalização e ponderamento.

O PEF visa uma harmonização metodológica para trazer mais confiança e robustez aos resultados dos estudos e assim permitir a comparação justa do desempenho ambiental de produtos. Esta comparação vai facilitar as escolhas do consumidor que considera critérios dessa natureza nas suas compras. Este parece ser o caso da maior parte dos europeus. Em 2013, mais de 80% da população europeia se dizia preocupada com os impactos ambientais dos produtos que consomem¹. De fato, mais de 2/3 dos europeus estão dispostos a pagar mais por produtos amigáveis ao meio ambiente, desde que tenham informações confiáveis. Neste sentido, o EU Ecolabel (Selo Ambiental Europeu) é um exemplo emblemático. Na conferência PEF foi apresentada a experiência deste rótulo ao longo de 25 anos de história. Trata-se de um sistema consolidado, são cerca de 40 mil produtos com a identificação na embalagem.  E é altamente reconhecido pela sociedade europeia, 65% dos que conhecem o selo confiam nele².

O ponto crítico que tanto o PEF quanto o EU Ecolabel compartilham é justamente a comunicação. O EU Ecolabel trilhou um caminho árduo de 25 anos para alcançar o alto nível de aceitação, mas tecnicamente ele não comunica o desempenho ambiental de um produto. E não comunica porque a sociedade (mesmo a europeia) não está preparada para absorver os conceitos e parâmetros metodológicos relativos à dimensão ambiental do ciclo de vida de um produto. O mesmo desafio enfrenta o PEF, com a desvantagem de ser um “recém-nascido” em termos de informação de performance ambiental. Como comunicar a complexidade dos resultados de um estudo de ACV, de forma transparente e compreensível? É realmente possível? A constatação após os três anos da fase piloto é que esta comunicação deve ser simples: gráficos de barras, escalas de desempenho (1 a 5, A ao E) e selos. E a comunicação deve ser diferenciada de acordo com o público alvo: Business to Consumer(B2C) ou Business to Business (B2B). Na verdade, o que o PEF pretende é chancelar uma condição de desempenho ambiental, amparada por uma metodologia confiável. Ao consumidor não interessa (ainda?) quantos kg de SO2 foram emitidos para a produção de determinado produto, mas sim qual a posição do produto em um ranking de emissões. Daí a importância de uma métrica harmonizada, robusta e amplamente aceita.

Uma última questão discutida na conferência e que não atingiu consenso é quanto à obrigatoriedade do PEF. Os participantes da conferência tiveram a oportunidade de votar online sobre quais políticas eles esperavam para o PEF. O resultado explicitou a grande diversidade de visões sobre como o PEF deve ser aplicado: 52% entendem que o PEF deve ser mandatório para empresas que já fazem “reivindicações verdes” sobre seus produtos, 42% entenderam que o PEF deve focar no B2B, 39% entendem que deveria ser voluntário e apenas 14% consideram que deveria ser mandatório. Os números não fecham em 100% porque era permitido votar em mais de uma opção.

A fase piloto do PEF chegou ao fim com grandes avanços e ainda algumas incertezas. A comunicação será um ponto crítico enquanto não estiver associada a um processo contínuo de educação ambiental da sociedade. O cidadão tem que ser conscientizado e sensibilizado sobre a questão ambiental. Se não se tem um conhecimento prévio mínimo sobre métricas para a sustentabilidade, apresentar resultados de desempenho ambiental com várias categorias de impacto confundirá mais que comunicará. Assim, exemplos são sempre bem vindos (quantas árvores devem ser plantadas para compensar emissões de GEEs). A discussão sobre a obrigatoriedade do PEF é delicada, mas necessária. Estamos vivendo um momento em que os modelos preditivos estão cada vez mais eficazes, as metodologias estão confiáveis e apontam cenários preocupantes no que tange o futuro dos recursos naturais. Enquanto se discute se as práticas de boa gestão dos recursos devem ser voluntárias, os problemas ambientais que enfrentamos pela má gestão são certamente obrigatórios! E esse dilema vai além das fronteiras europeias!

Para saber mais sobre como foi ao conferência, quais são os próximos passos, acesse: http://ec.europa.eu/environment/eussd/smgp/EFconference_2018.htm

¹http://europa.eu/rapid/press-release_IP-13-653_en.htm

²http://ec.europa.eu/environment/ecolabel/documents/label_you_can_trust.pdf

Por Thiago Rodrigues

Share on FacebookShare on Google+Tweet about this on TwitterShare on LinkedIn